Por Fabiana Cambricoli por Estadão
14 de maio de 2019

 

Em guia publicado nesta terça, organização define diretrizes para evitar ou retardar o aparecimento ou a progressão da doença, que atinge 50 milhões de pessoas no mundo

111111111111111

 

Seguir uma rotina de exercícios físicos e manter a pressão arterial e a diabete sob controle são tão importantes na prevenção da demência quanto atividades intelectuais. É o que diz um guia da Organização Mundial da Saúde (OMS) lançado nesta terça-feira, 13, com diretrizes para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência.

Elaborado por um grupo de especialistas de todo o mundo com base na revisão de estudos sobre o tema, o documento mostra que diminuir os fatores de risco associados a doenças cardiovasculares, como obesidade, sedentarismo e tabagismo, ajudam também a prevenir a ocorrência de demência ou pelo menos retardar o aparecimento do problema.

Entre as principais recomendações está a prática frequente de exercícios aeróbicos e de resistência e o consumo de alimentos saudáveis. Uma das dietas citadas no guia como exemplar é a mediterrânea, que privilegia produtos frescos e naturais, como frutas, legumes, azeite e cereais.

Por outro lado, o guia alerta que não há evidências científicas de que suplementos de vitamina B e E e de gorduras poli-insaturadas, como o ômega 3, diminua o risco de demência.

Aula de dança no Sesc Pompeia Foto: Alex Silva/Estadão

Aula de dança no Sesc Pompeia Foto: Alex Silva/Estadão

Explicação. Segundo Cleusa Ferri, professora do programa de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e única brasileira a integrar o grupo da OMS que elaborou o guia, doenças como obesidade, hipertensão e diabete e o consumo de tabaco e álcool levam a processos inflamatórios que afetam o cérebro, diminuindo a oxigenação no órgão e aumentando o risco de demência.

Estudo realizado pela pesquisadora brasileira em parceria com cientistas de outros países e publicado neste ano na revista científica Journal of Alzheimer’s Disease mostrou que, ao reduzir em 20% a prevalência de sete fatores de risco (baixa escolaridade, sedentarismo, hipertensão na meia-idade, obesidade na meia-idade, depressão, tabagismo e diabete) na população, seria possível diminuir em 16% a prevalência de demência no Brasil até 2050.

“No Brasil, avançamos bastante nos últimos anos na redução do tabagismo, mas na questão da atividade física e nutrição temos muito o que fazer ainda. Seria importante oferecer mais espaços para a prática de exercícios para a população. Na questão nutricional, a indústria da alimentação e de bebidas ainda precisa sofrer intervenções mais rígidas”, defende a especialista. Ela criticou, por exemplo, a veiculação de propagandas de bebidas alcoólicas na TV aberta.

Exemplos. Mulheres acima dos 60 anos são maioria nas aulas semanais de ginástica e dança do Sesc Pompeia, na zona oeste da capital. Todas reconhecem o benefício da atividade para o corpo e mente. “Acho que o problema de todas as doenças é a gente ficar muito parado. Meu médico sempre fala que não adianta só tomar remédio, tem que fazer atividade física e ter boa alimentação”, diz Ivanilde Coelho de Almeida Rocha, de 72 anos, que pratica ginástica duas vezes por semana no Sesc.

A aposentada Marisa Ferreira Gonçalves, de 65 anos, viu de perto um caso de demência na família (a sogra teve Alzheimer) e procura manter uma vida saudável para afastar esse e outros riscos. “Faço ginástica, ioga, hidroginástica e dança. E ainda estou esperando uma vaga na aula de práticas orientais”, conta ela. Ele teve um quadro de pré-diabete diagnosticado há alguns anos e aposta nos exercícios e em medicação para evitar que a doença evolua. “Os exercícios ajudam a perder peso, o que também é bom.”

Conforme recomenda a OMS, a funcionária pública Sandra Maria Bueno, de 56 anos, não quis esperar a chegada da terceira idade para se preocupar com a saúde. Há quatro anos faz ginástica, ioga e dança. “Acho que começando logo podemos ter um envelhecimento melhor. E participar dessas atividades em grupo ajuda a mente como um todo porque nos relacionamos com outras pessoas, conhecemos gente”, diz.

Dados. A OMS calcula que 50 milhões de pessoas no mundo vivam com demência atualmente, dos quais 60% estão em países de baixa ou média renda. Com o rápido envelhecimento da população, a estimativa é de que esse número atinja os 82 milhões em 2030 e 152 milhões em 2050.

Foi por causa do alto impacto da doença para o paciente e para seus familiares que a OMS elaborou o guia com recomendações de intervenções que adultos podem fazer para diminuir o risco de demência em idades mais avançadas.

“Demência é uma das principais causas de incapacidade e dependência entre os idosos e pode devastar a vida dos indivíduos afetados, seus cuidadores e suas famílias. Além disso, a doença traz um pesado ônus econômico às sociedades, com estimativa de que, até 2030, os custos com atendimento às pessoas com demência aumentem para US$ 2 trilhões por ano”, disse a organização no documento. “Embora não haja tratamento curativo para a demência, o manejo proativo de fatores de risco modificáveis ​​pode retardar o aparecimento ou a progressão da doença”, destacou o órgão.