Há alguns meses fui convidado para participar de um seminário na Fundação Getulio Vargas sobre “desertos alimentares”, esse novo tema da sociologia da alimentação voltado para o entendimento dos espaços, notadamente urbanos, que estão associados ao acesso precário aos alimentos que resulta duma distribuição desigual de recursos, incluindo os supermercados. Enfim, a tese se resume a saber onde, por dificuldades de acesso, os consumidores não dispõem de frutas, vegetais, grãos, leite desnatado e tudo o mais que se acredita constitua uma “dieta saudável”.
Para não falar apenas besteira, fui estudar um pouco o assunto e fiquei impressionado com a vasta literatura a respeito, em inglês – especialmente uma cartografia desenvolvida pelo Departamento de Agricultura norte-americano que localiza todos os “desertos” naquele país, como base de um programa oficial (o First Lady’s Let’s Move! initiative) que, associando pobreza e obesidade infantil, precisa saber onde esta gente está para desenvolver ações de minoração do mal. As pessoas pobres que moram a mais de 10 a 20 milhas de um supermercado ou feira, por exemplo, mesmo que tenham carro, formam a clientela do programa.
Essas coisas “práticas” é que movem um tipo de sociologia e antropologia norte-americanas. Mas finalmente surge uma matéria no New York Times que talvez nos ajude a compreender um pouco mais o assunto.
Ela relata a nova estratégia da Nestlé para vender, de porta em porta, os seus produtos num “deserto alimentar” brasileiro: uma favela em Fortaleza. Parecem carrinhos de picolé, movidos por uma força de trabalho sub-empregada que – como antigas vendedoras da Avon,  Yakult ou Tupperware – coloca o Nescau e outros produtos açucarados da empresa junto aos consumidores, oferecendo facilidades de pagamento como, por exemplo, nas datas próximas ao recebimento da Bolsa Família. Segundo a Nestlé, “a essência do nosso programa é alcançar os pobres (e) o que faz ele dar certo é a ligação pessoal entre a revendedora e o cliente”. São milhares de vendedoras treinadas pela empresa numa estratégia que tem resultado em atingir mensalmente 700 mil pessoas de baixa renda, garantindo um crescimento de 10% ao ano.
Não resta dúvida de que se trata de uma estratégia muito eficaz: se as pessoas não tem acesso a supermercados, a gôndola da Nestlé vai até elas. Provavelmente uma estratégia que ela não consegue implantar nos EUA, onde a vigilância da opinião pública e do governo é grande sobre as companhias alimentícias que vendem coisas consideradas nocivas para a saúde, provocando a obesidade infantil.
Mas aqui, no Brasil, o ambiente institucional lhes é bem favorável. New York Times registra a ação do lobby que formou a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Nestlé, Cargill, Unilever, o conglomerado dono de marcas como Hellmann’s, óleo Mazola e Ben & Jerry’s) e que tem atuado junto ao governo, Congresso e tribunais, gastando uma baba de grana, maior que a JBS, conseguindo barrar as estratégias da Anvisa com vistas a limitar a publicidade de junk food dirigida ao público infantil e outras ações restritivas.
No entendimento do professor Carlos Monteiro, professor de nutrição e saúde pública na Usp, ainda segundo o New York Times, “o que temos é uma guerra entre dois regimes alimentares, uma dieta tradicional com alimentos de verdade, produzidos por agricultores locais, e os produtores de alimentos ultraprocessados, feitos para serem consumidos em excesso e que, em alguns casos, viciam (…). É uma guerra, mas um dos regimes alimentares tem um poder desproporcionalmente maior ao do outro”.
O artigo do New York Times mostra, por um lado, uma imprensa preocupada com a ação das companhias americanas fora dos EUA, vendo-as fazer o que não fazem lá, em nova forma de colonialismo (ganhar dinheiro com um modelo operacional já não possível na matriz) e, por outro, o descaso que há por aqui, na grande imprensa, em relação à saúde e nutrição populares.
Mais importante, porém, é que na “guerra entre regimes alimentares” o lado da dieta tradicional, ascomo diz o professor da Usp, pense a eficácia de suas estratégias. Se pegarmos o caso da cidade de São Paulo e seus “desertos alimentares”, temos que eles estão situados grandemente no extremo sul da cidade, e com manchas no extremo norte e extremo leste. Ai, em absoluto não há feiras orgânicas, feiras livres, mercados municipais ou sacolões, conforme expressa o mapa acima.
Especialmente a função dos mercados municipais parece não ser entendida na quadra atual, quando o Mercado de Pinheiros passou a ser referencia não pelas suas virtudes, mas por seus defeitos: virou uma praça de alimentação e performances, longe da função dos mercados públicos que é regular a oferta de alimentos à população, seja em qualidade ou em quantidade. Sem dúvida a alimentação saudável não depende apenas de ensino e da doutrinação. Depende de logística, como se vê nesses “desertos” que o mapa anexo mostra.
E os sociólogos e antropólogos, entusiastas do estudo dos “desertos alimentares”, tem oportunidade de refletir sobre o que estão fazendo: se conhecendo a pobreza e lutando pela sua abolição ou, ao contrário, traçando o mapa da mina, pavimentando a estrada para o avanço de companhias tão ágeis e capazes como a Nestlé.

Fonte: E-Boca Livre