Helio Mattar, Folha de S.Paulo
17.abr.2019

 

O meio ambiente e a biodiversidade têm importância incalculável no fornecimento dos recursos necessários para a nossa saúde, alimentação, habitação e bem-estar. O rápido crescimento populacional, ao lado da forte expansão do consumo na segunda metade do século passado, aprofundou fortemente a dependência humana em relação à natureza. Mas a sociedade de consumo não se deu conta de que o aumento da demanda, além de causar um consumo excessivo de recursos naturais, o fez sem os necessários cuidados para a preservação dos diversos serviços ecossistêmicos.

O cenário mundial atual mostra que a humanidade consome mais da natureza do que o planeta é capaz de regenerar, usando em apenas sete meses a totalidade dos serviços ecossistêmicos disponíveis para um ano inteiro.

Isso representa uma ameaça não só ao meio ambiente em sua essência física, mas também à biodiversidade, ou seja, à variedade de espécies de seres vivos terrestres ou marinhos que habitam diversos ecossistemas e são responsáveis pelo fornecimento de tais serviços que, ao serem explorados acima da sua capacidade de regeneração, tendem a não serem capazes de produzir o necessário para todos.

Gado em pasto de fazenda próxima a Alta Floresta, no Mato Grosso | Lalo de Oliveira / Folhapress

Gado em pasto de fazenda próxima a Alta Floresta, no Mato Grosso | Lalo de Oliveira / Folhapress

Mas, ao se tratar da biodiversidade, embora se fale muito sobre o consumo excessivo e a forma de exploração da natureza, ambos incompatíveis com o equilíbrio natural dinâmico, pouco se fala sobre o potencial dos comportamentos de consumo de contribuírem para a sua preservação. O próprio consumidor raramente se dá conta do impacto do seu consumo nas perdas de biodiversidade, e menos ainda do como pode contribuir cotidianamente na solução desse problema.

Pelo menos um terço das ameaças à biodiversidade mundial está associada à produção para o comércio internacional de bens e serviços (Nature Ecology & Evolution), sendo que os principais responsáveis são a mudança no uso da terra para a produção agropecuária –desmatando vastas áreas que abrigam milhares de espécies, como é o caso, principalmente, das florestas– e a exploração exacerbada da fauna e da flora por meio da caça e do comércio ilegal de animais e de produtos madeireiros (WWF). Isso mostra que, mesmo sem se dar conta, há diversos temas sobre os quais o consumidor pode agir de modo a fazer frente às ameaças à biodiversidade por meio de escolhas de compra mais sustentáveis.

A perda da biodiversidade é um assunto muito amplo, pouco explorado de uma forma que leve os consumidores a entenderem a relação entre esse problema e os seus atos cotidianos de consumo. Para diminuir essa falta de conhecimento, é fundamental apontar situações que revelem essa relação. Como exemplo, existem diversos estudos que mostram a relação entre o uso de agrotóxicos e a morte de polinizadores, como as abelhas, que são fundamentais para manter o equilíbrio da cadeia alimentar por meio da dispersão de pólen.

Por outro lado, as mudanças climáticas são outro fator que ameaça a fauna por meio do desequilíbrio dos ecossistemas. Esse desequilíbrio, por exemplo, aumenta o nível do mar, que coloca em risco a vida nos mangues e nas zonas costeiras afetadas. Também aumenta a temperatura dos oceanos, colocando em risco a vida dos corais, essenciais para o equilíbrio da reprodução de diversos animais marinhos.

Essas mudanças climáticas, por sua vez, são causadas, entre outros fatores, pelas mudanças de uso da terra para dar abertura a novas áreas de cultivo e novos espaços para a pecuária por meio do desmatamento, que ocasiona não apenas a perda de biodiversidade vegetal, mas também afeta as espécies animais que encontram seu habitat nesses locais.

Assim, há uma grande variedade de causas da perda de biodiversidade. Visando abordar o que o consumidor pode fazer frente a este processo, vamos nos limitar neste artigo a duas ameaças: as florestas, principalmente devido ao desmatamento; e a vida animal que, além de ser principalmente afetada pela perda de habitat, sofre ameaças relacionadas também à caça e ao comércio ilegal de animais, que é, conforme estudo liderado pelo WWF, a segunda maior ameaça às espécies.

As florestas cobrem 30% da área terrestre do nosso planeta (NatGeo) e são fundamentais para a manutenção da vida na Terra. De um lado, são responsáveis pela produção do oxigênio que respiramos e, de outro, servem de habitat para diversas espécies animais e conservam grande variedade de plantas. (WWF).

Além disso, as florestas são essenciais no combate às mudanças climáticas, dada sua capacidade de absorver CO2, um gás de efeito estufa (GEE) que contribui com o aquecimento global, e de manter o ciclo da água por meio da evapotranspiração, que permite com que as árvores retornem a água absorvida do solo para a atmosfera – etapa importante para a formação de nuvens e consequente precipitação, evitando, assim, eventos climáticos extremos como longos períodos anormais de seca. Portanto, a degradação desse ecossistema terá efeitos em todo o planeta.

A triste notícia é que as florestas continuam em perigo: estudos (WWF, NatGeo, LiveScience) indicam que o mundo perde 7,6 milhões de hectares de florestas todos os anos, equivalente a 27 campos de futebol por minuto. Somente na Amazônia, 17% das suas florestas tropicais foram destruídas nos últimos 50 anos e, só no Brasil, as perdas de florestas tropicais representaram um quarto de toda a perda mundial, entre 1990 e 2010 (FAO). O desmatamento leva à perda de habitat para diversas espécies animais que vivem nas florestas, o que é, provavelmente, a maior ameaça atual à biodiversidade terrestre, sendo identificada como a principal ameaça para 85% de todas as espécies descritas na ‘Lista Vermelha’ da IUCN (WWF).

Isso representa um risco para a vida na Terra, pois o desequilíbrio das populações de animais tem impacto negativo direto no funcionamento das cadeias alimentares –principalmente quando as espécies polinizadoras e dispersoras de sementes são afetadas–, com reflexo especialmente sobre a vida humana, visto que os humanos estão no topo dessa cadeia (IPEA).

Frente ao quadro descrito, que papel pode ter o consumidor na proteção da biodiversidade? De um lado, o consumidor pode cobrar das empresas práticas transparentes e que promovam a preservação dos ecossistemas, reconhecendo, por meio da preferência na compra de seus produtos, aquelas que se destacarem nessa direção. De outro lado, o consumidor pode cobrar dos governos a elaboração e implementação de políticas públicas que incentivem e priorizem ações de preservação dos ecossistemas.

Já em seus atos de compra, cabe ao consumidor se informar sobre as ações das empresas fabricantes dos produtos que vai comprar, buscando conhecer a ligação entre as marcas disponíveis no mercado e as empresas. Ao dar preferência a produtos e marcas de empresas que trabalham com uma cadeia produtiva mais sustentável e, sempre que possível, preferindo produtos certificados –como produtos de madeira, carne e alimentos orgânicos– o consumidor dará indicações às demais empresas do mesmo setor sobre a direção que elas deveriam seguir.

Ainda, em seu dia a dia, o consumidor pode contribuir com a preservação da biodiversidade de forma indireta por meio da redução dos impactos negativos de seu consumo. É o caso das mudanças climáticas, por exemplo, em relação à qual as emissões de GEE podem ser reduzidas pela substituição do carro pelo transporte coletivo ou pela bicicleta/caminhada (em trechos curtos); pela instalação de sistemas de energia renovável em casa (já que a geração de energia proveniente de fontes fósseis emite grandes quantidades de GEE e, mesmo no Brasil, somam 23% das fontes de energia); ou ainda pela redução no consumo de carne, já que as emissões decorrentes da pecuária são extremamente significativas quando comparadas a outras formas de proteína.

Em casa, o consumidor pode reduzir o consumo de energia elétrica pela ação de apagar luzes ao sair de um ambiente ou desligar eletroeletrônicos quando não estão em uso, pela escolha de bens mais eficientes no uso de energia elétrica (usando o selo Procel para se informar), e, até mesmo, pelo uso da máquina de lavar e de secar apenas quando a carga de roupa tiver atingido o limite de capacidade das máquinas, desta forma, reduzindo o uso das mesmas.

Além disso, cada um pode trabalhar voluntariamente ou fazer doações a instituições de sua confiança que prezam pela conversação ambiental e da biodiversidade.

Por fim, vale ressaltar que a preservação das formas de vida no planeta, representadas pela sua biodiversidade, implica na responsabilidade compartilhada de todos que nele vivem e dele dependem para sobreviver, de modo que empresas, governos, sociedade civil e consumidores devem buscar formas de colaborar para que o resultado do ponto de vista do equilíbrio dos ecossistemas seja o melhor possível.

 

Acesse a matéria original em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helio-mattar/2019/04/como-o-consumidor-pode-contribuir-para-a-biodiversidade.shtml