“Não se forma um indivíduo na graduação, a graduação lhe dá o direito de se habilitar e exercer uma profissão. A formação tem que ser o antes e o após a graduação”

Depoimento de Élido Bonomo, nutricionista, professor da Ufop e presidente do CFN

Uma premissa fundamental do educador é que ele tenha a capacidade de ensinar e de aprender concomitantemente.
Não é isso que se vê corriqueiramente na academia. A extensão universitária foi o grande divisor de águas para se compreender que a universidade, e notadamente a universidade pública, tem de fazer extensão na perspectiva de retroalimentar o ensino.
Sem nenhum demérito à pesquisa básica, necessária, é preciso dizer que a pesquisa aplicada leva as pessoas a refletirem e redesenharem o ensino a partir da experiência e da vivência coletiva.
Para responder isso, é necessário levar o ensino próximo ao local onde essas pessoas vivem. Se se tiver, por exemplo, a nutrição sendo formada apenas intramuros, não vai se ter a dimensão dos grandes fatores nutricionais, epidemiológicos e alimentares com que convivemos hoje na população brasileira.
A Maria do Carmo Soares de Freitas, uma grande estudiosa, nutricionista, da Universidade Federal da Bahia, tem um livro chamado Agonia da fome: um estudo fenomenológico, para o qual ela passou alguns meses morando em periferias para entender como aquelas pessoas de Salvador entendiam a fome, para ela poder orientar sua prática pedagógica.
Ela dizia assim, em vários momentos: “Eu sou mais bem aceita por antropólogos do que pelos nutricionistas. Estes acham que o que eu faço não é nutrição.” Isso é motivado pelo fato de ela trabalhar muito com os conceitos de sociologia e antropologia, para compreender a alimentação, de onde está vindo, para onde vai, como as pessoas encaram o alimento. Ou seja, é um outro olhar, das ciências sociais, das ciências humanas, e não necessariamente das ciências biológicas.
Quando eu levo o estagiário ao campo para trabalhar, seja numa creche, numa escola, na unidade de saúde, no domicílio, numa visita no domicílio, num asilo, o conhecimento básico de dietética, nutrição humana, bioquímica, fisiologia é necessário, mas insuficiente para compreender o meio. Se não se tiver um pouco de saber sobre as ciências sociais, ciências humanas, questões ambientais etc., o estudo não se completa. Não se forma um indivíduo na graduação, a graduação lhe dá o direito de se habilitar e exercer uma profissão. A formação tem que ser o antes e o após a graduação.
Esse é o nosso entendimento da educação continuada e da educação permanente.
Mas os alunos estão se graduando, uma parte deles, para atender ao mercado. E a discussão que nós fazemos no sistema e nas entidades de nutrição é que é preciso identificar qual a necessidade da sociedade como um todo. Baseado em quê? Baseado em perfis epidemiológicos, baseado em perfis de saúde, baseado nas tendências de modificação do perfil do consumo alimentar, para onde ele está indo?
Nós, do Conselho Federal de Nutricionistas, nós do sistema, pensamos o seguinte: temos de formar gente com qualidade técnica, ética, política, que tenha capacidade de ajudar a promover saúde e prevenir doenças por meio de educação alimentar nutricional. Para isso, é necessário discutir o sistema de produção de alimento saudável.

Fonte: Revista – Brasil Inteligente: O País que se prepara para o bicentenário